O racismo não somente afeta a vida das pessoas, como também as destroem, as modificam e as matam constantemente. Desde pequenos, estamos acostumados a seguir determinados padrões sociais impostos pela sociedade e, quanto mais tentamos nos aproximar desse ideal proposto por ela, menos próximos estamos da nossa real natureza e essência. A cada dia, nós negros precisamos enfrentar todas as formas de racismo existentes, desde a mais nítida, como uma agressão verbal ou física a nossa cor/etnia, até aos exemplos menos nítidos, como aquelas dicas que mais nos parecem ser imposições para que nós mudássemos tudo o que representamos ou os olhares de julgamento, o afastamento, a perda de oportunidades, entre outros. Com isso, nós que sofremos tanto quando levantarmos da cama e corrermos atrás dos nossos sonhos, essa atitude já não pode ser visto somente como algo comum, mas sim como um ato de resistência contra tudo aquilo vai contra a gente, uma demonstração de que, independente do que aconteça, permaneceremos seguindo em frente, conquistando o lugar ao sol que desejamos ter perante a sociedade. 

Atualmente, já se tornou comum ouvirmos relatos de incidentes que ocorrem com indivíduos pretos num país onde a maior parte da população brasileira é conhecida justamente por ser negra e não ter uma maioria branca. Segundo dados do IBGE, cerca de 54% da população é composta por negros. Presenciamos o racismo institucionalizado em pleno século XXI, onde temos nossos direitos garantidos por lei, mas desrespeitados pelas próprias pessoas que deviam fazer jus às legislações criadas. Já estamos acostumados a ver casos de mortes de negros nas ruas e comunidades mais pobres, onde a segurança que é garantida pelo Estado não nos protege e vivenciamos casos cada vez mais graves de agressão causadas pelos agentes que deveriam fazer justamente o contrário. Um caso bem claro pode ser visto quando analisamos uma notícia fornecida pelo site Uol. Nele consta uma matéria publicada no ano passado que demonstra o quanto o poder público é discriminador pode ser descrito na polêmica que envolveu uma juíza do Paraná, Inês Zarpelon que, no ano de 2020, condenou um homem afrodescendente. A justificativa da sentença estava ligada à “virtude de sua raça”, na qual demonstra ter sido um ponto decisivo na hora do veredito. Essa sentença revela o quanto a sociedade pode ser cruel com as pessoas de pele mais retinta, pois elas partem do pressuposto de que seus desvios e atitudes podem ser justificadas ou causadas por conta de um traço que nos é hereditário. Assim como essa decisão foi tomada com base na raça, muitas outras também foram tomadas pelos mesmos ideais seguidos por estes agentes da lei que tem a obrigação de nos manter seguros. 

Apesar dessas teorias já terem sido descartadas pela ciência há muitos anos atrás, podemos perceber que as pessoas ainda repercutem essa ideologia de que todos podem ser determinados em relação aos seus genes. O determinismo biológico, essa crença de que as nações podem ser definidas pela sua raça já não devia servir de base para as decisões e pontos de vista de ninguém, porém, podemos ver que não é assim que nós negros somos vistos pelos outros, pois, independente de quem somos, quanto temos e o que representamos, nossos comportamentos e vida que levamos ainda serão julgados de acordo com a cor da pele que temos.

Crescemos achando que nós estamos errados por termos nascido dessa forma, quando, na verdade, a culpa sempre foi da própria sociedade por segregar indivíduos de acordo com seus traços físicos, econômicos, entre outros. É doloroso acreditar que, perante ao mundo, somos apenas números. Para nós, tudo isso é injusto, pois não somos apenas uma mera estatística na qual consta números e probabilidades, somos seres humanos que estão tentando cumprir seu papel nesse mundo, realizar seus sonhos, ajudar suas famílias e viver em sociedade. Lembrar de todas essas mortes é entender também que todos perdem alguma coisa quando alguém perde sua vida injustamente. Milhões de pessoas já sofreram e ainda sofrem por causa do racismo estrutural que está tão incrustado que, às vezes, mal somos capazes de reconhecê-lo, é como se fosse parte da gente e isso é o que vemos de mais assustador nos dias atuais. 

Nós seguimos ouvindo que não deveríamos gostar de certos traços nossos, que nossa herança cultural não deve ser valorizada, que as tradições afro-brasileiras não devem ter prestígio, somos humilhados, nossos gostos são criminalizados, nossas ideologias são apagadas, estamos sendo dominados, escravizados ideologicamente apenas por sermos diferentes. Sofremos tanta pressão social para nos encaixarmos em determinados padrões que vemos constantemente as pessoas se submetendo a procedimentos perigosos para que elas possam socializar sem sofrer críticas. Conhecemos pessoas que nem sequer sabem que seus cabelos são crespos, pois estão há tanto tempo passando alisantes em suas cabeças que mal reconhecem aquilo que lhes é natural. Elas se submetem a processos dolorosos e prejudiciais à saúde para poder correr atrás de algo que não lhe representa. Ainda por cima, vemos essa gente que, desde sempre, sofre tanto com os preconceitos e estereótipos criados pelo racismo que elas acabam se tornando seres alienados que mal se conhecem, assumindo toda a ideologia dominante como verdadeira, repassando as mesmas ideias para os seus descendentes e familiares, influenciando cada vez mais o maior número de gente possível, dando continuidade a esse ciclo de violência contra a nossa própria natureza. 

Presenciamos uma sociedade tão cega que se torna incapaz de respeitar as diferenças e celebrar a diversidade existente no mundo, pois, graças aos diferentes modos de se pensar e enxergar o mundo que existem milhares de descobertas feitas. Se todos pensássemos da mesma maneira, não iríamos a lugar algum. Evoluímos justamente por nossas diferenças e contrastes. As invenções feitas pelo mundo todo foram realizadas por indivíduos que compõem as mais complexas esferas sociais, nas quais todas as experiências presenciadas por cada um os ajudaram na elaboração e na descoberta de algo novo que é útil para a sociedade. Perder vidas é, automaticamente, perder mentes brilhantes que possuem grandes potências intelectuais que poderiam ter causado um imenso impacto social. Quando algum negro morre justamente por ser quem é, a sociedade retrocede anos e mais anos de lutas e conquistas por espaços públicos e destaque social. 

Coluna por David Lucas, para Agência Popular Jovens Comunicadores

Referências: 

https://jornal.usp.br/radio-usp/dados-do-ibge-mostram-que-54-da-populacao-brasileira-e-negra/

https://brasilescola.uol.com.br/sociologia/racismo.htm 

https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2020/08/12/sentenca-de-cunho-racista.html

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