Arthur William Cardoso Santos é doutorando em Saúde Pública na ENSP/Fiocruz onde pesquisa o desenvolvimento de Inteligência Artificial no Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS). O texto é parte das reflexões da aula sobre Inteligência Artificial ministrada para o projeto Jovens Comunicadores.
Cena 1:
Um jovem abre o celular e, em poucos minutos, recebe diversos vídeos criados por Inteligência Artificial, inclusive influenciadores sintéticos, personagens realísticos criados por IA.
Cena 2:
Uma empresa reduz vagas de estágio porque agentes de IA passaram a escrever relatórios, responder clientes, gerar códigos e produzir peças de comunicação. O trabalho que servia como porta de entrada passa a ser executado por sistemas algorítmicos.
As duas cenas anteriores ajudam a entender a centralidade da IA na vida da juventude. Não se trata apenas de uma nova ferramenta digital. A Inteligência Artificial já organiza a forma como jovens estudam, trabalham, se informam e imaginam o futuro.
O primeiro impacto aparece na circulação de informações. As big techs atuam como novas mediadoras da vida social. Seus algoritmos decidem o que aparece ou desaparece da tela de cada pessoa. O objetivo não é informar, mas manter o usuário conectado dentro de jardins murados. Como consequência, jovens são expostos a bolhas ideológicas e desinformação em escala industrial.
É neste ambiente que surgem personagens como a Dona Maria, no Instagram, influenciadores sintéticos criados com IA capazes de afetar a opinião de milhões de pessoas. A fronteira entre pessoa real, personagem, propaganda e operação política torna-se nebulosa. Se antes a disputa era pelo controle dos grandes meios, agora passa pelos sistemas de recomendação.
E o trabalho?
A automação atinge os jovens porque ameaça os cargos juniores. Textos, planilhas, códigos simples e tarefas administrativas eram etapas de aprendizagem profissional. Com agentes de IA, o mercado tende a eliminar parte destas portas de entrada. O resultado pode ser um desemprego estrutural juvenil: não apenas falta de vaga, mas substituição da formação dentro das empresas.
Este cenário afeta a escolha da graduação. Como decidir o curso superior quando as profissões estão em transformação? O operador de drone é um exemplo emblemático. A ocupação nasceu como promessa de futuro, mas já surgiu acompanhada da perspectiva de automação por sistemas informatizados e rotas autônomas.
Contudo, a IA não impacta todos igualmente. Como os modelos são treinados com dados do passado, carregam visões de mundo marcadas por desigualdades. Quando alguém pede a uma IA para gerar a imagem de um “CEO de startup”, dificilmente o resultado será uma mulher negra, indígena ou jovem de periferia. Este é o racismo algorítmico: a atualização tecnológica de preconceitos históricos.
Há ainda uma dimensão geopolítica. Na atual Divisão Internacional do Trabalho (DIT), países do Sul Global produzem dados, enquanto empresas dos EUA e da China concentram infraestrutura, processamento e lucro. O colonialismo de dados transforma a juventude latino-americana em matéria-prima para modelos monetizados por corporações estrangeiras.
Regulação para quê?
Com o uso da IA, é urgente proteger direitos, garantir transparência, responsabilizar empresas e impedir discriminações. O PL 2338/2023, ainda no Congresso, é parte deste esforço. Regular não significa impedir a inovação. Significa impedir que a juventude seja tratada apenas como usuária, dado ou mão de obra descartável.
Estamos apenas no início da caminhada. A IA pode ampliar oportunidades. Mas, sem governança democrática, tende a aprofundar desigualdades antigas com ferramentas novas. O futuro da juventude deve ser construído com educação crítica, soberania tecnológica e garantia de direitos humanos.
Acesse a revista completa clicando aqui.
O projeto é realizado pela BemTv – Educação e Comunicação, com parceria da Pluriverso e do CAAIDS, patrocínio do Governo do Estado, Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, Petrobras, através do Programa Petrobras Socioambiental e Governo Federal.